A nova geração que está reinventando o que significa "ter sucesso" no Brasil
Por Fernanda Luz · 5 de julho de 2025 · Atualizado em 7 de julho de 2025
Mariana tem 29 anos, mora em Florianópolis e trabalha como designer de produto para uma empresa americana — de casa, em horário flexível, com salário em dólar. Ela não tem plano de saúde da empresa, não tem FGTS, não tem 13º salário. E está completamente satisfeita com isso.
"Minha mãe fica preocupada porque eu não tenho 'carteira assinada'. Mas eu ganho mais do que ela ganhou em qualquer emprego formal, trabalho de onde quero e tenho tempo para as coisas que importam pra mim", conta ela.
A história de Mariana não é exceção. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva publicada em maio de 2025 mostrou que 58% dos brasileiros entre 22 e 35 anos prefeririam trabalho autônomo com renda equivalente a um emprego CLT com os mesmos ganhos. Dez anos atrás, esse número era de 31%.
O que mudou
A pandemia acelerou uma transformação que já estava em curso. O trabalho remoto mostrou que presença física no escritório não é sinônimo de produtividade. A crise econômica de 2015-2016 mostrou que o emprego formal não é sinônimo de segurança. E as redes sociais mostraram que é possível construir uma carreira sem depender de uma empresa.
Mas há algo mais profundo acontecendo. Pesquisadores de comportamento apontam uma mudança de valores: para essa geração, tempo, autonomia e propósito valem tanto quanto — ou mais do que — estabilidade e status.
Não é só sobre dinheiro
Lucas, 32 anos, deixou um emprego de gerente de marketing em São Paulo para abrir uma pequena fazenda de cogumelos no interior de Minas Gerais. O salário caiu pela metade. Mas ele diz que nunca dormiu tão bem.
"Sucesso, pra mim, é acordar com vontade de trabalhar. É saber que o que eu faço tem um impacto real. Não é ter um cargo bonito no LinkedIn."
A psicóloga Renata Carvalho, especialista em comportamento organizacional, observa que essa mudança não é universal. "Ela é muito mais presente entre jovens com ensino superior e acesso a redes de proteção familiar. Para quem não tem essa rede, a CLT ainda é uma âncora importante."
O ponto, talvez, seja esse: o sucesso está sendo redefinido — mas não por todos, e não da mesma forma. O Brasil que emerge dessa transformação é mais plural, mais contraditório e, de certa forma, mais honesto sobre o que as pessoas realmente querem.
Fernanda Luz é editora-chefe da PlusBR. Cobre comportamento e cultura há 12 anos.